sábado, 7 de abril de 2018

Carta ACBP Audiência Pública Câmara Vereadores NL

Nova Lima, 05 de abril de 2018


A todos os presentes na Audiência Pública sobre a regularização de cancelas e guaritas nas ruas e condomínios em Nova Lima,

            Prezados senhores e senhoras,
            É com muita preocupação que comparecemos a esta audiência pública solictada pelos vereadores Silvânio Aguiar Silva e Álvaro Alonso Perez Morais de Azevedo.
            Nossa preocupação tem fundamento como mostrremos adiante e parte da vivência prática cotidiana com as cancelas nas ruas de Nova Lima.
            O que estamos dicutindo aqui nesta data?
            O que são as cancelas nas vias públicas de Nova Lima?
            É preciso esclarecer em primeiro lugar que, ao contrário do que alguns argumentam, esta discussão não tem nenhuma relação com a maior ou menor segurança de qualquer cidadão.
            E isto porque não há nenhuma evidência concreta, não há nenhuma pesquisa que indique que a existência de cancelas em vias públicas tenha efeito superior à segurança oferecida por todos os demais recursos já regularizados, como rondas regulares, vigilância física 24 horas por dia, auxílio de câmeras registrando imagens nas ruas permanentemente etc.
            Ao contrário, podemos citar por exemplo o coordenador do Centro de Pesquisas em Segurança Pública da PUC/MG e Secretário de Seguranca Pública do Estado de Minas Gerais de 2003 a 2007 Luis Flávio Sapori, que em entrevista declarou que as cancelas em vias públicas tendem a tornar a cidade mais segregada, mais desigual e que o investimento em monitoramento eletrônico é muito mais eficiente. 
            Ou seja, em primeiro lugar, é fundamental deixarmos bem claro que a segurança privada existe e está plenamente regularizada e regulamentada, dispondo dos mais inúmeros e variados recursos físicos e tecnológicos para uma boa eficiência nesta funcão de garantir a segurança, de preferência é claro em parceria com os agentes da segurança pública. Portanto, não é isto que estamos discutindo aqui hoje.
            Temos inúmeros exemplos de vigilância privada ou em parceria público/privada bem sucedida e sem cancelas. Um exemplo é o bairro Itacoatiara, em uma das regiões muito violentas da Grande Rio, que adotou o modelo “Bairro Protegido”, instalando dezenas de cameras de vigilância 24 horas nas ruas e posto policial militar em parceria com a associação de bairro na entrada do mesmo, conseguindo praticamente zerar a criminalidade no local.
            Outro exemplo é a melhora imensa alcançada pelo sistema de rondas implantado no bairro Vale do Sol em Nova Lima, associado à maior presença da polícia militar, que alcançou também praticamente zerar a criminalidade no local.
            Temos ainda o projeto “Vizinhos Protegidos” da Polícia Militar em parceria com a sociedade civil organizada em Associacões de Bairro e outras. 
A segurança pública existe e está regularizada como todos sabemos, mas mesmo com o louvável empenho de todos os agentes policiais da segurança pública, sabemos que esta tem sido insuficiente frente a todas as formas de crime, que aumenta proporcionalmente à desigualdade social; e que o contingente de policiais é muito aquém do que todos os cidadãos necessitam.
Mas, se por um lado todos sabemos que a segurança privada tem sido necessária, por outro lado, é importante frisar que ela acontece e funciona independente de cancelas em vias públicas, isto é um fato.
            Mas se as cancelas não existem por causa da segurança, porque então elas proliferam? Quem ganha com isso? Porque regularizá-las?
            Certamente muita gente está ganhando com a implantacão das cancelas, mas não são os cidadãos, os moradores.
            Ganha a Prefeitura de Nova Lima, ganha porque ao implantar cancelas surgem os “Falsos Condomínios”, e com eles os imóveis ganham um valor maquiado de “condomínio fechado”, aumentando o valor dos imóveis aumenta proporcionalmente os impostos como IPTU, imposto de transferência de imóveis etc.
            Mas a Prefeitura ganha duplamente porque aumenta os impostos e reduz os gastos, pois todos sabemos que onde as cancelas se instalam os moradores passam a assumir funções e gastos que são responsabilidade do poder público, como manutenção e pavimentação das vias públicas. Temos o exemplo do bairro Pasárgada, que está nesse momento em obras de pavimentacão das ruas, obras que seriam obrigacão da prefeitura mas estão sendo custeadas pelos moradores.
            Esta equação para a Prefeitura de Nova Lima parece ótima, seguindo a cartilha neoliberal do “Estado Mínimo”, que encolhe ainda mais a cada cancela instalada, mas, ao mesmo tempo, “Imposto Máximo”, como o recente aumento escandaloso do IPTU em Nova Lima nas cifras de quinhentos ou até mil por cento de aumento, que até o momento a justiça tem barrado, mas que foi proposto pela prefeitura e aprovado vergonhosamente por esta nossa câmara municipal de vereadores.
            Assim, temos que dizer que o que estamos debatendo aqui com a regularização das cancelas é o fortalecimento do “Estado Mínimo e Imposto Máximo”. Imposto máximo inclusive com dupla tributação, porque os grupos que se arvoram a instituir esta lógica perversa dos “Falsos Condomínios”, depois de implantadas as cancelas, passam a cobrar taxas e exigem que as mesmas sejam pagas obrigatoriamente inclusive pelos não associados, pois todos moradores estariam se “beneficiando” deste engodo. Tentam instituir assim verdadeiros “impostos” locais. Ameaçam e intimidam os moradores com cobranças judiciais.
Municiados de uma equipe de advogados criam esse custo e sofrimento aos moradores de terem que se defender na justiça. Temos o exemplo do bairro Pasárgada onde muitos moradores já foram levados à justiça por não aceitarem se submeterem a esta cobrança que os “Falsos Condomínios” querem tornar obrigatória. Tiveram que chegar até a terceira instância, quando o STJ declarou como improcedente obrigar os cidadãos a este novo imposto local, dando ganho de causa aos moradores. 
            Ou seja, já temos os impostos federais, estaduais e municipais, já somos sabidamente um dos países de maior e mais pesada carga tributária do mundo, já estamos em abril na boca do “leão da receita federal”, já tivemos um aumento escandaloso de IPTU que está na justiça, e estamos discutindo aqui, através do tema disfarce “instalação de cancelas”, estamos debatendo aqui a implantação do “Imposto Local”, assim ficaremos com impostos federais, estaduais, municipais e locais, pagando mais de uma vez pelo mesmo serviço ou benefício.
            Então quem ganha com a implantação das cancelas?
            Ganha a Prefeitura, ganham também os empreendedores que aprovam um loteamento comum e depois vendem os lotes supervalorizados com a promessa de que “vai virar condomínio fechado” porque vão instalar uma cancela.
            Ganham os investidores na especulação imobiliária que faturam alto sobre as vendas em “Falsos Condomínios”. Ganham escritórios de advocacia e empresas de administração ou gestão que antes só atendiam os condomínios verticais,  mas agora atendem bairros com cancelas, funcionando como “síndicos” terceirizados, forçando adesões e cobranças de moradores.
            Ganham as empresas de segurança privada, também chamadas de “indústria do medo”, porque instituindo a cobranca obrigatória elas podem explorar mais os moradores, pois estes perdem a liberdade de mercado de recusar aquela prestação de serviços.
            A quem interessa as cancelas nas vias públicas?
            Sejamos claros: quantos bairros humildes de Nova Lima irão implantar cancelas nas ruas pagando uma vigilância privada 24 hs? A resposta todos sabemos que é nenhum, as pessoas pobres e humildes, a grande maioria dos cidadãos de Nova Lima não tem condições de bancar isso. As cancelas, como todos sabemos, só existem nos bairros de alto poder aquisitivo, ou seja, estamos aqui discutindo como aumentar ou garantir um pouco mais os privilégios dos ricos desta cidade. Eles já são donos do ouro velho e do ouro novo, já são donos de suas mansões, mas querem também ser donos das ruas, querem controlar quem simplesmente caminha pelas ruas.
            Vale lembrar aqui a célebre citação do grande pensador do Brasil Milton Santos: “A classe media não quer direitos, ela quer privilégios, custe os direitos de quem custar.”
            Vejamos um exemplo ocorrido em bairro de Nova Lima, depois de implantadas as cancelas, os proprietários do bairro se deram o direito de instituir regimento interno do bairro que proíbe caminhoneiros de circularem após as 17:00 horas ou em finais de semana. Então você pode assistir a uma cena em que um trabalhador caminhoneiro não consegue descarregar sua entrega e é obrigado a dormir na frente da portaria plantada em uma via pública que o impediu de passar e de fazer seu serviço.
            Mas qual é a lei que impediu este trabalhador de poder dormir em sua casa naquela noite? Afinal, nossa constituição cidadã diz claramente que ninguém será impedido de fazer algo ou obrigado a algo senão por força da lei. Mas nesse caso não havia lei nenhuma, mas apenas o poder local instituído na forma de uma cancela impedindo a passagem em via pública, com seguranças uniformizados, com cachorro farejador, montando todo um aparato, um cenário de segurança pública, quando na verdade o que nós temos ali é a prática cotidiana do constrangimento ilegal.
            Trabalhadores honestos são obrigados a se identificarem em via pública todos os dias para chegarem ao seu local de trabalho, mesmo já sendo totalmente conhecidos. São obrigados a portar crachá para circularem em vias públicas, por ter sido isto aprovado no código de obras do “Falso Condomínio”.
            Estamos aqui discutindo a regularização deste privilégio dos ricos controlarem o acesso dos pobres às ruas onde moram os ricos.
Será que esta audiência irá promover mais este privilégio dos ricos contra o direito dos humildes, contra a liberdade de ir e vir garantida em nossa constituição?
Quem perde com a            implantação das cancelas?
            Perdem os cidadãos humildes trabalhadores que nunca terão cancelas em seus bairros populares, mas serão sempre cconsiderados suspeitos e deverão apresentar documentos, declarar para onde vão e usar crachá para circularem nas ruas onde moram os ricos, e que deveriam ser vias públicas de livre acesso.
            Perdem trabalhadores e moradores que devem descer do ônibus bem longe e andar sob sol ou chuva, porque o ônibus não pode passar onde instalaram uma cancela no meio da rua, como é o caso do bairro Pasárgada.
            Perdem os moradores que não recebem mais suas correspondências em casa porque os correios não passam onde foi instalada uma cancela no meio da rua, como é o caso do bairro Pasárgada.
            Perdem os moradores que terão que se defender na justiça para garantir seu direito à liberdade de associação, porque onde instalam uma cancela querem obrigar todos a pagar “impostos locais” como se a associação fosse compulsória.
            Perde a cidade, a cidadania, a democracia porque vamos tornando a cidade mais desigual, mais segregada, mais sectária, vamos alimentando o “apartheid social”, vamos construindo soluções de isolamento para poucos privilegiados e não saídas coletivas.
            Perde o Estado de  direito, a constituição, porque as cancelas vão contra os direiros consitucionais de ir e vir, de liberdade de circulação, de não ser constrangido a não ser por força da lei, de não ter sua correspondência interceptada em uma portaria com cancela em via pública.
            Por tudo isto é que convocamos os cidadãos de Nova Lima a não tolerarem mais estas cancelas em vias públicas, as ruas e as praças públicas são de todos nós, não podem ser transformadas em clubes. Os ricos já têem os seus clubes onde os pobres não podem entrar, não é justo que tomem para si até mesmo o controle dos espaços públicos.
            Solicitamos ao Ministério Público que possa intervir em defesa dos direitos coletivos e da constituição, impedindo a continuidade dessa situação e apontando a inconstitucionalidade de qualquer lei que venha a intencionar garantir mais este privilégio.
            Convidamos os vereadores desta câmara municipal a agirem pelo bem comum, pelo bem da maioria e não a favor de uma elite privilegiada, trabalhando para limpar das ruas de nossa cidade este “muro da vegonha”, esse muro simbólico que divide a cidade dos ricos e a cidade dos pobres, essa segregação pública baseada na condição econômica que é instituída pelas cancelas em vias públicas.
            Para encerrar trago uma citação do atual filme dos Estúdios Marvel, o “Pantera Negra”:
            “Em tempos de crise, sábios constroem pontes, enquanto tolos preferem barreiras”

            Atenciosamente,

Jorge Vasconcelos de Brito
Gestor Presidente
                                Associação Comunitária do Bairro Pasárgada - ACBP

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