A Era de Aquarius
Sabe aquela longa lista de criações antológicas que marcaram um momento
histórico, uma fase e se tornaram o símbolo, a memória do espírito de uma época?
Pois essa lista acaba de crescer com o filme “Aguarius”, que certamente
ficará na história como a marca da época “Fora Temer”, da época temerosa em que
o Estado Democrático de Direito foi golpeado pelo estado antidemocrático da
direita.
Mas além da indiscutível beleza, força e intensidade estética,
cinematográfica desse filme de Kleber Mendonça Filho, da interpretação pungente
e inesquecível de Sônia Braga, do engajamento político tempestivo de todo o
elenco em Cannes, da vergonhosa decisão de uma comissão do ministério não
indicá-lo como filme brasileiro a concorrer ao Oscar de estrangeiro, além de
tudo isso, há ainda um aspecto que diz respeito à micropolítica cotidiana da
fabricação do convívio e da urbanidade.
É esse aspecto que gostaria de ressaltar, pois a atitude
ética-estética-política da personagem Clara confronta o tripé que sustenta
quase todo o projeto de urbanização que domina nossa vida contemporânea.
É armado com esse tripé da segurança/conforto/modernização que a “força da
grana que ergue e destrói coisas belas” tem imposto seu projeto de urbanidade,
civilidade, convivialidade como única e exclusiva opção para tudo e para todos.
O que é chocante de forma alguma é a existência de um projeto como este,
mas a sua ostensiva e arrogante vontade e intenção de fazer-se único,
exclusivo, obrigatório, total e inquestionável. Sendo assim totalizante e totalitário.
É com um sabor muito especial e com alegria que podemos assistir ao filme
“Aguarius” e pensar que a luta de Clara por manter simplesmente sua vida como
ela é, por resistir a engolir o pacote pronto da segurança/conforto/modernidade/valorização
do patrimônio, é também a luta dos atingidos pelos “falsos condomínios”, é também
a nossa luta da “Associação Comunitária do Bairro Pasárgada”.
Abraços
Ricardo Moebus
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