domingo, 25 de setembro de 2016

A Era de Aguarius

A Era de Aquarius

Sabe aquela longa lista de criações antológicas que marcaram um momento histórico, uma fase e se tornaram o símbolo, a memória do espírito de uma época?
Pois essa lista acaba de crescer com o filme “Aguarius”, que certamente ficará na história como a marca da época “Fora Temer”, da época temerosa em que o Estado Democrático de Direito foi golpeado pelo estado antidemocrático da direita.
Mas além da indiscutível beleza, força e intensidade estética, cinematográfica desse filme de Kleber Mendonça Filho, da interpretação pungente e inesquecível de Sônia Braga, do engajamento político tempestivo de todo o elenco em Cannes, da vergonhosa decisão de uma comissão do ministério não indicá-lo como filme brasileiro a concorrer ao Oscar de estrangeiro, além de tudo isso, há ainda um aspecto que diz respeito à micropolítica cotidiana da fabricação do convívio e da urbanidade.
É esse aspecto que gostaria de ressaltar, pois a atitude ética-estética-política da personagem Clara confronta o tripé que sustenta quase todo o projeto de urbanização que domina nossa vida contemporânea.
É armado com esse tripé da segurança/conforto/modernização que a “força da grana que ergue e destrói coisas belas” tem imposto seu projeto de urbanidade, civilidade, convivialidade como única e exclusiva opção para tudo e para todos.
O que é chocante de forma alguma é a existência de um projeto como este, mas a sua ostensiva e arrogante vontade e intenção de fazer-se único, exclusivo, obrigatório, total e inquestionável. Sendo assim totalizante e totalitário.
É com um sabor muito especial e com alegria que podemos assistir ao filme “Aguarius” e pensar que a luta de Clara por manter simplesmente sua vida como ela é, por resistir a engolir o pacote pronto da segurança/conforto/modernidade/valorização do patrimônio, é também a luta dos atingidos pelos “falsos condomínios”, é também a nossa luta da “Associação Comunitária do Bairro Pasárgada”.

Abraços
Ricardo Moebus