Abaixo um texto produzido como contribuição para a audiência pública que deve ocorrer ainda este ano na Câmara Federal sobre os Falsos Condomínios:
Todos os
territórios onde vivemos, e tentamos implantar nossa maneira, nosso modo de
existir, são disputados por uma diversidade de idéias, opiniões, e de projetos,
muitas vezes divergentes, concorrentes, ou até antagônicos. E não há nada de
prejudicial nisso, pelo contrário, a diversidade seja bio, seja cultural, seja
subjetiva, seja racial, é sinal da riqueza plural da vida. Vale lembrar a
célebre frase “toda unanimidade é burra”, do Nelson Rodrigues.
No caso dos
“falsos condomínios”, bairros residenciais, que a partir de uma dada associação,
tem seu acesso controlado por cancelas, podemos parafrasear essa máxima,
dizendo, “toda unanimidade é bruta”.
Isso porque a
partir dessa suposta segurança oferecida por uma vigilância particular
implantada no bairro, a associação passa a reclamar para si o direito de
cobrar, indistintamente, de todos os moradores, até mesmo proprietários de
lotes, que sequer freqüentam o bairro, uma taxa como obrigatória.
Se
obrigatória, se independente da vontade de associar-se ou não, podemos dizer
que a associação passa a cobrar impostos. E, para aqueles que discordam, que
tem outra posição, outra opinião, outro projeto para aquele território, essa
mesma associação passa a armar-se de uma milícia de advogados para exigir, intimidar,
constranger, os discordantes a pagarem seus impostos devidos a ela.
Tenta
implantar assim uma unanimidade bruta, além de burra, porque baseada na força,
na brutalidade da imposição, da violência simbólica de ser taxado inadimplente,
e processado por não pagar.
Acontece ainda que, a partir da dita
cancela e da suposta obrigatoriedade da taxa/imposto implantada, a mesma
associação passa a assumir gastos cada vez mais vultosos, com centenas de
milhares de reais para os advogados que movem seus processos contra os
“beneficiados” moradores e proprietários do bairro, e para construções de portarias,
sedes, ou até clubes; além da escalada infinita dos eternamente insuficientes
recursos de segurança, com mais câmeras, mais funcionários, mais automóveis, mais
ronda, mais de tudo para uma aposta infinita.
É assim que
algumas associações desse modelo, em cinco ou mais anos, multiplicam por mil
seus ganhos e seus gastos, e vão claro mudando com isso inclusive o perfil dos
moradores, habitantes, proprietários, ocupantes daquele território, em última
instancia executando um projeto de expulsão gradual e silenciosa baseada no
critério econômico: quem não tem recursos para bancar o projeto que se mude
dali, estabelecendo uma perfeita Plutocracia local.
Desta forma realiza-se
uma limpeza surda pelo critério financeiro, mas também de propostas, idéias,
discordâncias, lidando com a diversidade de forma bruta e intolerante, criando
uma falsa visão de unanimidade de desejos, vontades, projetos, necessidades,
baseada na verdadeira violência dos “falsos condomínios”.